Falta.

“Quem tem saudade não está sozinho
Tem o carinho da recordação
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração…”

Podia dedicar estes versos para muitas pessoas, podia escrevê-las cartas contando como a presença delas no meu dia faz uma falta enorme. Pessoas que desde o princípio se fizeram importantes, que eu sempre soube que o apartamento traria tristeza. Ultimamente venho estado muito introspectiva, vivendo perdida no mar de lembranças que me restou. Hoje em dia tudo sempre parece estar muito distante, até mesmo as coisas que fiz ano passado, as pessoas que gastei as horas chatas do dia, transformando-as em luz, as dores, as aflições, as agonias de viver que contei nos bancos dos ônibus, sinto falta da minha cidade, do calor, do povo, das marchinhas de carnaval e do fim de tarde.

O afastamento é involuntário, não consigo coordenar esta correria, este infortúnio que é morar em uma cidade grande onde ninguém realmente se toca profundamente, tudo me parece meio supérfluo e vago, não temos tempo pra conversar com uma pessoa sequer porque o mar de vozes dissonantes reverbera e empresta nossa atenção a elas, não consigo me concentrar, dispendo um valor de energia que me esgota no final do dia.

Estamos sempre perdidos fazendo o que não gostamos ou nos incomoda em prol das conveniências, estamos correndo pra todos os lados buscando um pouco de sossego das tarefas e com isso nos afastamos lentamente dos nossos pequenos prazeres. Há tempos não escrevo mais, não saio pra ver o mar, pra respirar o ar puro, não vejo meus amigos, não sei o que é ter um dia incrível e simples. Tudo parece distante e irreversível. As desculpas sempre serão em vão, a irritabilidade é o nosso prêmio da atualidade.

Eu só queria ver o bloco desfilar na rua, perder uma tarde conversando com alguém que amo, selecionar as vozes agradáveis entre a multidão, aprender sem pesar, sentir prazer nas coisas, nos momentos. Estou dormente por dentro, me olho como alguém que vaga e não sente. Esta sensação é aterrorizante. Talvez escreva para prestar satisfações aos que talvez leiam, mas também escrevo para desafogar publicamente. Não sei até quando isso vai durar, mas me vejo cada vez mais perdida, mesmo com tantos braços amigos, mesmo com tanto amor – sinto falta dos antigos – daqueles que me conhecem e não me julgam, daqueles que posso falar toda espécie de coisa, dos meus amigos, da minha família. Tudo dói muito, mas não conseguir expressar dói mais ainda.