Fragilidade.

Está de madrugada. Tudo parece planar no ar frio da noite, parece que só minha respiração influi no ambiente. Agora está tudo em silêncio, onde todos nossos conflitos parecem se acomodar e nos observar remoê-los. Faz um tempo que não venho aqui, na realidade faz bastante tempo até. Vim porque senti vontade, vim para pedir socorro talvez. Todos os dias há um eco que murmura por socorro, que se inquieta, revira, desdobra procurando uma explicação. Desta vez, não são aqueles conflitos aflorados com a juventude sobre a nossa perspectiva de futuro, sobre Deus, diabo, músicas que tocam interruptamente na rádio e o desamor. São divagações sobre a memória, sobre o que deixaremos para a posteridade, o que estamos construindo hoje e como nos lembraremos de quem nós fomos de uma maneira material.

Penso em como nossas lembranças são descartáveis nos smartphones, como a internet por vezes é um espaço vazio de troca de aparências, um lugar que não demonstramos quem verdadeiramente somos pois a nossa fragilidade revela a nossa realidade que sempre é encoberta por um momento muito mais “cool”, um espaço que não somos levados a sério, ofuscados, diferentes do convencionalismo das selfies momentâneas de flashs milimétricos que desaparecem no mesmo instante. Ufa! É assim que me sinto, como um patinho feio e desengonçado que se vê inteiramente incapaz de acompanhar, de interagir com isso e não se sentir em um freak show.  Da tela dos celulares e através dos likes não podemos medir a nossa solidão, o abandono da visceralidade das relações que foram feitas para lembrar, as fotos como recordações de bons dias que lembraremos com nossos filhos. Não apenas mero instrumento de prestígio e prazer pessoal. Eu particularmente detesto viver nos anos 2000. Este não é um discurso dos saudosistas que amam a máquina de escrever, mas sim de alguém que se esforça pra imaginar como deveria ser uma vida sem plateias.

Adentrando mais, penso nas relações que construímos, como as palavras são trocadas de maneira tão descartável, na solidão – não aquela que sentimos na companhia dos outros, mas a solidão de se aprisionar e pensar que perdeu a chave. Sempre fui uma pessoa reservada, mas parece que só piora com o passar dos anos e não há tratamento de iluminação espiritual, hare krishna, método de hipnose e psicanálise que me exponha. Estou me afundando no meu isolamento a um ponto em que não consigo manter uma conversa decente, pois nunca consigo me concentrar no que os outros estão dizendo sem me desligar e perguntar novamente “como que é?” achei que podia ser viagem minha, mas isto tem sido recorrente. Como diria a música da Vanusa “fui eu que se fechou num muro e se guardou lá fora, fui eu que num esforço se guardou na indiferença, fui eu que numa tarde se fez tarde de tristezas.” Me afastei tanto de tudo que amava que agora me vejo em um cais na eterna espera daquilo que não alcanço mais. Não sei onde me tornei uma pessoa tão horrível, talvez sempre tenha sido e nunca percebi.

Passo muito do meu tempo lendo meus livros acadêmicos e digitando artigos, trabalhos, fichamentos. Ouço as minhas músicas que ninguém conhece e isto é horrível, pois pareço mais uma louca tentando se sobressair na multidão das 10 melhores do Spotify. Eu bem que gostaria de ser assim, esta fala pode ter parecido pedante, mas acredite: não é. Quanto mais a gente tenta saber de algo ou saber de si, mais sozinho estamos. Setenta por cento do meu dia se baseia nisso. Gosto de ocupar meu tempo com coisas que me dão prazer, gosto de me sentir plena de alguma atividade produtiva.

Não sei até onde isto é o mal do século, que eu considero como a ansiedade e depressão, não sei se são reflexos de quem me ergui ao longo dos anos. Paga-se um alto preço pela reclusão quando ninguém percebe suas sutilezas e pedidos de socorro para se integrar. Ninguém! É duro ser considerado um outsider, um chato por natureza, uma pessoa “na sua”. Quando na realidade tudo que eu queria era ter amizades, poder conversar abertamente com uma pessoa incrível, sair e poder sorrir pras pessoas que estão à minha volta, ter consciência de que tenho um amigo que faz muita questão da sua companhia pra vida. Enquanto vejo todos se divertindo com seus amigos de 10 anos atrás que são confidentes para-a-vida-e-infinito-além, eu permaneço no limiar do “oi, tudo bem?” e isto é corrosivo pra alguém que queria ter mais.

Desculpa pra quem está lendo (isto se alguém ler), mas é um desabafo sincero porque eu já desisti de tentar, meio que me reneguei ao limbo da introversão e à falta de pertencimento nas relações, entro na internet e fico deprimida com o feed do facebook e todas aquelas histórias que precisam urgentemente de likes para se sustentarem como legais, tento conversar e não consigo, apenas com poucas pessoas que eu infelizmente vivo magoando e escapando a atenção. Me perdoem. Me ajudem. Tenho pedido por socorro sutilmente para não parecer um clamor, mas aqui dentro ressoa desta maneira. É horrível se sentir fraco e deslocado. Talvez em um momento passe.

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