a identidade desconhecida

Fui e voltei na asa de um pássaro gigante
Cortando nuvens pelo céu empoeirado
Com fumaça e raios de sol.
Deixei meu coração pregado nos arranha-céus da velha cidade
Maltrapilha com seus muros pichados
Com um frio que corta nossos lábios
E voltei para tocar meus pés na areia
Na beira do mar quente
Onde o sol não se esconde atrás de nuvens
E cintila em nossos óculos coloridos.

Realmente, faz tempo que não escrevo nada
Acho minhas linhas infiéis e mentirosas
Quando escrevo mudo o que sinto, visto um personagem
A persona e o ser confundem-se como num teatro
Enceno a dor de ser eu mesma, o desespero de não ser
Quem talvez eu desejasse.

A troca de identidade é inquietante, foi-se o cenário conhecido
Novos personagens e falas, novos escritos
Ainda não sei bem por onde começar
Pedida entre corredores de ônibus e pontes
Sons desconhecidos e gírias.

Já estive aqui antes
E não é mais como eu conheço
Tenho alguns presságios, lembranças que se descobrem sem querer
Enquanto giro até cair na roda dançante
Esperando pelo momento de me reconhecer,
Encontrar novos olhares amigos
E ver renascer em mim a pessoa
Que ficou adormecida nos bancos do metrô.

Mas novamente acordo com olhos cansados,
Posando na minha cama sem encantos
Com o calor e o suor
De agora ser uma nova pessoa,
Velha-nova, sem novidades interessantes
Com o peito carregado de mil rostos com saudade
De tudo que passou.

Walt Whitman – Canção de Mim Mesmo (fragmento)

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

Ofegante

Teu olhar multicolorido e infiel
Passa furtivamente pelo meu
E me encontra despreparada
Beirando uma crise, um novo deslize.

Através dos teus sons infinitos
E flutuantes,
Que sussurram teu jeito em meu ouvido,
As tuas palavras tímidas e esquivas
Revelam-se pra mim como num sonho,
Um súbito contentamento,
Minuto de paz.

E todas as letras que escrevo
Nas paredes brancas, nas folhas,
Em meio aos raios de sol que pairam
E cobrem de dourado este céu,
São como pássaros que correm com o vento,
A lua que vela a madrugada,
Protegendo-nos da escuridão.

Para mais uma vez despertar por trás dos sentidos
Das intenções esquecidas,
Para deixar escapar pelos lábios
O que cabe dentro das canções, dos olhares,
Do toque, lugares que mora a saudade.

Dois braços estendidos com pesar
Abraçando a nebulosa ilusão que vaga a mente,
Esperando para desanuviar
Gritam os poetas com descuido
E vaidade,
O transtorno e amor de se contentar.

Viva!

A busca, a incessável jornada pela essência, pelo silêncio na noite escancarada de estrelas cintilantes. Estive buscando em livros sagrados, filosofias, filmes ou rituais mágicos, buscando o despertar ao atravessar uma esquina já percorrida milhões de vezes. Talvez seja por medo de inclinar-se em frente ao relógio e se jogar sem medo de sentir as linhas do tempo marcarem o rosto, as coisas que me atravessam e deixam seus rastros nos entalhes do peito. Eu ainda não sei o que sou, não encontrei definição para isto. Também não sei quem era a meio ano atrás e não tenho a mínima ideia de quem serei. Apenas quero sentir algo verdadeiro, algo que me faça sentir parte deste universo tão complexo e fútil.

Estava muito precisando escrever, porém ainda não sei o que irá completar estas linhas. O fato de apenas sentar-me aqui e falar talvez já seja a escrita propriamente dita. Será? Não estou com vontade de escrever poemas, poesias, sonetos ou crônicas sobre o cotidiano, amor, desespero ou apenas observações. Quero escrever para conversar comigo mesma ou com alguém que está lendo isto, quero gastar minhas horas de conversa guardadas e empoeiradas. Há muitos pensamentos que perambulam insones pela minha cabeça apenas esperando pelo momento de se lançar e tornar-se uma reflexão. Gosto bastante de conversar, mas gosto mais ainda de conversas que nos indagam e questionam quem somos, aquelas que nos fazem presumir todos estes mistérios do universo. Coisas de gente louca, as mentes inquietas.

Agora tudo fugiu, odeio quando começo a escrever algo e me perco na linha de pensamento, mesmo que esta linha não faça sentido algum. Falar por falar, falar pra aliviar e se esgotar de tanto falar, falar pra desafogar, falar para se entender e viver. Tenho conversado comigo durante a noite, naquela bendita hora de dormir que a alma se ilumina e emana a sua luz inquietadora pelo quarto nos impedindo de dormir. Eu gosto disto secretamente, pois é nesta hora que tenho meus pensamentos mais iluminados e o pior é que nunca documento nada e nunca tem ninguém pra me ouvir.

O cotidiano do trabalhador é maçante e efusivo, são dias desleais conosco. A vida correndo lá fora no sopro da natureza enquanto ficamos encaixados uns nos outros no vagão de um metrô. E assim levaremos nossas existências até a terra nos abraçar com seu odor e assim morreremos em paz e de braços cruzados. Precisamos encontrar urgentemente utilidade para nossas almas, as almas inquietas. Sinto uma leve inveja de quem se contenta com as monotonias do dia-a-dia e não transita pelo outro lado da alegria, estas pessoas serão para sempre uniformes e contentes. Nós sempre queremos mais, sempre esperamos mais. O próximo beijo, o trançar dos cabelos, o vento no rosto, o balanço das pernas na dança desordenada, a risada furtiva.

Falei, falei e não falei nada. Só ouço o eco dos Pontos Cardeais tocando no meu rádio e meu olhar que percorreu todo o quarto em busca de algo pra acrescentar aqui. Um ensaio sobre a liberdade da alma, a única hora que me permito vagar. Enfim, somos todos um bando de gentes loucas que corre atrás da vida enquanto ela se esquiva, isto é tão clichê. Cada um com nossas observações, obsessões e canções. Gritos contidos, lábios cerrados e línguas falando. Somos todos nós mesmos, impacientes, brilhantes e volúveis, somos nós.

“Estou montado no futuro indicativo, já não corro mais perigo e nada tenho a declarar”.

Que bom seria…

Se não houvessem distâncias
Nada de terminais, portos ou aviões
Para que os amantes e todas as nações
Despertassem da mesma aurora,
Repousassem na mesma escuridão.

Que bom seria que se por decreto
O mundo inteiro pudesse ser repleto
De grandes campos de girassóis.

Que bom seria se pudéssemos guardar no bolso
Amigos, lugares, músicas e corpos
Para admirarmos assim que der vontade.

Que bom seria se não existisse a saudade!
E a solidão que nos beija as ponta dos pés.

Seria bom se eu não tivesse que partir
Para amargar bem longe daqui
As minhas horas de reclusão.

Seria bom se a indecisão se decidisse
Para que todas estas horas tristes
Abandonassem de vez o meu coração.

Fez-se mágoa, saudosismo e distância
Olhando agora as velhas fotos da infância
Espalhadas por acaso pelo chão.

Seria bom se a minha família e amigos
Pudessem todos morar comigo
Numa enorme mansão.

A alegria já está se recolhendo
E da porta ouço batendo os velhos tormentos
Que embarcam no próximo avião.

E que bom seria. Ah, se esta poesia
Se transformasse numa canção
Para preencher prédios e avenidas
Os carros e as moças bonitas
E ressoar num velho violão.

Porém, melhor seria
Se pelo menos por um dia
Não houvessem a distância dos olhares
Entre os campos e as cidades
Pais, amigos, amantes e lugares
A separação.

Pensamentos inúteis do século XXI: O silêncio

Silêncio. O meu silêncio pesa e abafa minha voz. Já faz algum tempo que tenho me calado e apenas observado passivamente tudo acontecendo. O silêncio é mais prazeroso e hostil do que as palavras, pois nos dá a liberdade de pensar e desfazer tais pensamentos sem que ninguém saiba, nos dá o discernimento e o poder de reformular novos conceitos. O silêncio é como um quarto escuro e trancado, os ecos dos nossos pensamentos atingem as paredes e voltam mais potentes aos nossos ouvidos. É profundo e singular. O silêncio não permite que eu magoe ou traia meus pensamentos com uma voz que muitas vezes é indecisa e voraz.

Enquanto todos se debatem pelas ruas, escancaram suas vozes e corações como caixas de som em plena avenida do centro da cidade – eu prefiro observar – a observação é mais racional e inquieta, por mais que não transpareça. Numa época onde os brilhantes intelectos detém a capacidade de expor suas opiniões estúpidas e ainda assim recebem gratificações por pensar desta maneira, onde a força das palavras ultrapassam as telas e vivem no sofá da sala, na estante da TV, na mesinha de cabeceira. Onde participar de algo é mais importante do que existir.  Os silenciosos são tachados de ignorantes e sem conceito, pois a validação dos seus pensamentos está justamente na multidão e no coletivo.

A força do pensamento uno está desgastada, enfraqueceu no meio das vozes da multidão. Para ser visto e notado como alguém que passa pela vida é necessário se expressar, mas não se expressar em artes ou conversa de amigos. É necessário agrupar a sua opinião e perdê-la numa maré de opiniões semelhantes para poder encontrar a sua identidade e assim poder ser reconhecido como um ser humano pensante.  Os pensamentos uniformizados são o “in” desta nova geração, o coletivo que se diz diferente dos outros membros do grupo, como se cada um obtivesse uma marca própria e impassível.

Prefiro me afastar e repensar sobre tudo isto. Não que eu não me importe, longe de mim passar por este mundo como uma desconhecedora do mistério que nos cerca e que nunca poderemos entender e então o que nos cabe é especular a respeito. Apenas não acredito nesta uniformização das opiniões e retribuo a este comportamento o meu silêncio. Tenho me afastado igualmente de fatos bons ou ruins, sociais ou íntimos. Passo uma boa parte do tempo apenas tentando entender como tudo isto acontece e ensinando a minha mente a lidar com os fatos que nos atingem e nós não podemos mudar.

Este texto ainda não diz metade das coisas que correm aqui dentro da minha mente, mas pelo menos é a tentativa da quebra de um silêncio aprisionador.  Ao mesmo tempo em que eu me apego ao hábito de tranquilizar as palavras ao invés de agitá-las, isto me incomoda um pouco, pois me deixa perplexa e muda em momentos que eu realmente precisava expressar o que sinto. Há tempos estou apenas vagando pelas ruas sem nenhum pingo de criatividade, impedindo que as coisas me toquem de forma extasiante, apenas as observo e deixo passar.

Aos poucos vou tomando forma as minhas opiniões e permitindo que elas sejam justas e distintas e que meus sentimentos sejam fiéis e suaves a mim e a quem os dou. As janelas e portas da percepção se abrem para que a luz que vem de fora preencha todo o espaço vazio e faça todas as minhas palavras voarem para fora. Mas o silencio e observação quando são aprendidos, são uma experiência sublime e que sempre deverá ser aprimorada. Devemos saber o momento e o porquê de fechar as nossas bocas e deixar que o silêncio explique para todos qual é a nossa posição.

O importante é sempre distinguir nossas reflexões e saber onde iremos aplicá-las de forma sábia e eficaz para que o que é nosso fique eternamente gravado, identificado como próprio e nunca se perca no mar dessas multidões pensantes com suas tendências ocas e inexpressivas.

“O que hoje existe não é comunidade, é simplesmente rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais… E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo.”

Retirado do livro Demian, escrito em 1919 por  Hermann Hesse.