Pensamentos inúteis do século XXI: O silêncio

Silêncio. O meu silêncio pesa e abafa minha voz. Já faz algum tempo que tenho me calado e apenas observado passivamente tudo acontecendo. O silêncio é mais prazeroso e hostil do que as palavras, pois nos dá a liberdade de pensar e desfazer tais pensamentos sem que ninguém saiba, nos dá o discernimento e o poder de reformular novos conceitos. O silêncio é como um quarto escuro e trancado, os ecos dos nossos pensamentos atingem as paredes e voltam mais potentes aos nossos ouvidos. É profundo e singular. O silêncio não permite que eu magoe ou traia meus pensamentos com uma voz que muitas vezes é indecisa e voraz.

Enquanto todos se debatem pelas ruas, escancaram suas vozes e corações como caixas de som em plena avenida do centro da cidade – eu prefiro observar – a observação é mais racional e inquieta, por mais que não transpareça. Numa época onde os brilhantes intelectos detém a capacidade de expor suas opiniões estúpidas e ainda assim recebem gratificações por pensar desta maneira, onde a força das palavras ultrapassam as telas e vivem no sofá da sala, na estante da TV, na mesinha de cabeceira. Onde participar de algo é mais importante do que existir.  Os silenciosos são tachados de ignorantes e sem conceito, pois a validação dos seus pensamentos está justamente na multidão e no coletivo.

A força do pensamento uno está desgastada, enfraqueceu no meio das vozes da multidão. Para ser visto e notado como alguém que passa pela vida é necessário se expressar, mas não se expressar em artes ou conversa de amigos. É necessário agrupar a sua opinião e perdê-la numa maré de opiniões semelhantes para poder encontrar a sua identidade e assim poder ser reconhecido como um ser humano pensante.  Os pensamentos uniformizados são o “in” desta nova geração, o coletivo que se diz diferente dos outros membros do grupo, como se cada um obtivesse uma marca própria e impassível.

Prefiro me afastar e repensar sobre tudo isto. Não que eu não me importe, longe de mim passar por este mundo como uma desconhecedora do mistério que nos cerca e que nunca poderemos entender e então o que nos cabe é especular a respeito. Apenas não acredito nesta uniformização das opiniões e retribuo a este comportamento o meu silêncio. Tenho me afastado igualmente de fatos bons ou ruins, sociais ou íntimos. Passo uma boa parte do tempo apenas tentando entender como tudo isto acontece e ensinando a minha mente a lidar com os fatos que nos atingem e nós não podemos mudar.

Este texto ainda não diz metade das coisas que correm aqui dentro da minha mente, mas pelo menos é a tentativa da quebra de um silêncio aprisionador.  Ao mesmo tempo em que eu me apego ao hábito de tranquilizar as palavras ao invés de agitá-las, isto me incomoda um pouco, pois me deixa perplexa e muda em momentos que eu realmente precisava expressar o que sinto. Há tempos estou apenas vagando pelas ruas sem nenhum pingo de criatividade, impedindo que as coisas me toquem de forma extasiante, apenas as observo e deixo passar.

Aos poucos vou tomando forma as minhas opiniões e permitindo que elas sejam justas e distintas e que meus sentimentos sejam fiéis e suaves a mim e a quem os dou. As janelas e portas da percepção se abrem para que a luz que vem de fora preencha todo o espaço vazio e faça todas as minhas palavras voarem para fora. Mas o silencio e observação quando são aprendidos, são uma experiência sublime e que sempre deverá ser aprimorada. Devemos saber o momento e o porquê de fechar as nossas bocas e deixar que o silêncio explique para todos qual é a nossa posição.

O importante é sempre distinguir nossas reflexões e saber onde iremos aplicá-las de forma sábia e eficaz para que o que é nosso fique eternamente gravado, identificado como próprio e nunca se perca no mar dessas multidões pensantes com suas tendências ocas e inexpressivas.