Disfarce

Dizem que é na tristeza que a gente se encontra. Escrevi isto e fiquei encarando a tela com os olhos marejados, distantes, esperando algum sentimento súbito, algum flerte com a inspiração, alguma mensagem. Nada. Não acontecia nada. Todos que eu conhecia estavam ocupados demais vivendo suas vidas, não havia ninguém pra ouvir o que eu tinha pra dizer. Eu tinha uma dor no peito, um machucado que não curava nunca e eu tentava estancar aquela dor de todas as maneiras. Eu sempre falhava.

No rádio, Bethânia sussurrava “negue, seu amor, o seu carinho. Diga que você já me esqueceu…” e eu sempre lembrava daqueles passeios nas tardes de sol, aqueles passos trocados nas calçadas largas do centro de São Paulo, as breves e profundas visitas às lojas de disco da Sé e República. A tua presença era uma constante no meu peito, eu não conseguia te esquecer. Por mais que conversasse ou me iludisse com outras imagens no espelho borrado, apenas a tua me parecia nítida quando tudo ficava incerto.

Eu não sei mais que horas tu dorme, se eu ainda pensa em mim, se ainda organiza a mesa de trabalho diariamente – o teu ritual – eu não sei como anda teu peito. Eu sei que te vejo partir, mesmo que lentamente, te vejo se distrair com outros sorrisos, eu vejo você esvair pelos meus dedos e qualquer esforço que eu fizer será em vão. Talvez estas palavras ganhem peso e significado devido à tristeza, pela bebida barata, talvez elas sejam verdades que ficam no cantinho do peito, latejando devagarzinho.

Há muito tempo não escrevo nada. Não tenho inspiração, não tenho vontade ou tempo. Há um bom tempo não dou satisfações a mim mesma d como me sinto. Tento me esclarecer com analistas, músicas ou terapias holísticas de iluminação espiritual. Nada me serve. Escrever pode ser meu refúgio, mas ao mesmo tempo é meu pesar, pois não acredito que faço isto com a alma. Faço por vaidade, sou metida a fazer algo que não sei. Fico murmurando pelas madrugadas, tendo pensamentos que nunca são escritos, frases bonitas que nunca significarão nada.

De qualquer maneira, obrigada por me fazer vir até aqui escrever. Obrigada por significar muito pra mim. Enquanto estiver na livraria organizando livros, enquanto estiver com aquela canção na cabeça – lembre de mim – lembre das noites na garagem, lembre dos nossos desencontros, dos pés dispersos na cama no meio da madrugada, lembre de quem nós somos, de quem eu sou. Eu ainda não superei. Espero que um dia eu supere. Você poderá ser uma daquelas histórias que perpetuam na cabeça até a velhice e nós repetimos para cada conhecido, mesmo que ele não grave nem 1/3, mas o coração de quem conta transborda de saudade. Assim como eu me sinto agora.

 

Pensamentos inúteis do século XXI: O silêncio

Silêncio. O meu silêncio pesa e abafa minha voz. Já faz algum tempo que tenho me calado e apenas observado passivamente tudo acontecendo. O silêncio é mais prazeroso e hostil do que as palavras, pois nos dá a liberdade de pensar e desfazer tais pensamentos sem que ninguém saiba, nos dá o discernimento e o poder de reformular novos conceitos. O silêncio é como um quarto escuro e trancado, os ecos dos nossos pensamentos atingem as paredes e voltam mais potentes aos nossos ouvidos. É profundo e singular. O silêncio não permite que eu magoe ou traia meus pensamentos com uma voz que muitas vezes é indecisa e voraz.

Enquanto todos se debatem pelas ruas, escancaram suas vozes e corações como caixas de som em plena avenida do centro da cidade – eu prefiro observar – a observação é mais racional e inquieta, por mais que não transpareça. Numa época onde os brilhantes intelectos detém a capacidade de expor suas opiniões estúpidas e ainda assim recebem gratificações por pensar desta maneira, onde a força das palavras ultrapassam as telas e vivem no sofá da sala, na estante da TV, na mesinha de cabeceira. Onde participar de algo é mais importante do que existir.  Os silenciosos são tachados de ignorantes e sem conceito, pois a validação dos seus pensamentos está justamente na multidão e no coletivo.

A força do pensamento uno está desgastada, enfraqueceu no meio das vozes da multidão. Para ser visto e notado como alguém que passa pela vida é necessário se expressar, mas não se expressar em artes ou conversa de amigos. É necessário agrupar a sua opinião e perdê-la numa maré de opiniões semelhantes para poder encontrar a sua identidade e assim poder ser reconhecido como um ser humano pensante.  Os pensamentos uniformizados são o “in” desta nova geração, o coletivo que se diz diferente dos outros membros do grupo, como se cada um obtivesse uma marca própria e impassível.

Prefiro me afastar e repensar sobre tudo isto. Não que eu não me importe, longe de mim passar por este mundo como uma desconhecedora do mistério que nos cerca e que nunca poderemos entender e então o que nos cabe é especular a respeito. Apenas não acredito nesta uniformização das opiniões e retribuo a este comportamento o meu silêncio. Tenho me afastado igualmente de fatos bons ou ruins, sociais ou íntimos. Passo uma boa parte do tempo apenas tentando entender como tudo isto acontece e ensinando a minha mente a lidar com os fatos que nos atingem e nós não podemos mudar.

Este texto ainda não diz metade das coisas que correm aqui dentro da minha mente, mas pelo menos é a tentativa da quebra de um silêncio aprisionador.  Ao mesmo tempo em que eu me apego ao hábito de tranquilizar as palavras ao invés de agitá-las, isto me incomoda um pouco, pois me deixa perplexa e muda em momentos que eu realmente precisava expressar o que sinto. Há tempos estou apenas vagando pelas ruas sem nenhum pingo de criatividade, impedindo que as coisas me toquem de forma extasiante, apenas as observo e deixo passar.

Aos poucos vou tomando forma as minhas opiniões e permitindo que elas sejam justas e distintas e que meus sentimentos sejam fiéis e suaves a mim e a quem os dou. As janelas e portas da percepção se abrem para que a luz que vem de fora preencha todo o espaço vazio e faça todas as minhas palavras voarem para fora. Mas o silencio e observação quando são aprendidos, são uma experiência sublime e que sempre deverá ser aprimorada. Devemos saber o momento e o porquê de fechar as nossas bocas e deixar que o silêncio explique para todos qual é a nossa posição.

O importante é sempre distinguir nossas reflexões e saber onde iremos aplicá-las de forma sábia e eficaz para que o que é nosso fique eternamente gravado, identificado como próprio e nunca se perca no mar dessas multidões pensantes com suas tendências ocas e inexpressivas.

A cura do desatino

Do nada me bateu uma vontade de escrever algo aqui, só pra deixar gravado e para que saibam que eu ainda sou capaz de sentir. Na realidade, acho que estou escrevendo mesmo para depois me lembrar do que senti sem que seja algo vago e distante, mas algo que sempre que eu ler trará as mesmas sensações novamente.  Só queria dizer que estou bem, que toda a escuridão que me cercava se dissipou e todas as coisas que pareciam inertes e sombrias agora se apartaram de mim.

Como se um grito contido decidisse ecoar pelas ruas e atingir todos meus espaços vazios, este grito partiu de algum lugar distante e preencheu minha alma. Não se trata de pessoas ou objetos, algo real e concreto. Só acordei e me senti melhor, fui prolongando este efêmero sentimento que se debatia aqui dentro, porém não sabia a saída pra cantar por aí. Também não sei quanto tempo duram estas coisas, pode ser que durem uma semana, um dia ou dez anos. A descoberta da felicidade não cabe a mim e todos os outros que tentaram desvendá-la não chegaram a nenhum conceito concreto. Então, apenas digo que me sinto bem como na canção da Nina Simone.

Os seis meses passados foram como um turbilhão, como um bocado de vozes falando ao mesmo tempo e eu me perdi no meio da bagunça. Aos poucos tive que ir arrumando a bagunça da minha casa, colocando cada pessoa em seu devido lugar, jogando alguns velhos sentimentos ressequidos fora, tirando alguns da prateleira para enfeitar meu coração novamente e refazendo as minhas opiniões a cerca do que havia acontecido.

Pelo menos até então tudo passou, sinto-me em paz com minha consciência e feliz por ter me desprendido de certos costumes que ganhei no meio desta coisa toda. Agora só me resta esperar pra ver se tudo ainda vai continuar “calmo”, principalmente sem que eu precise surtar a cada dia que passa. Só peço desculpa por decepcionar algumas boas pessoas, falar coisas que não devia, mas que estavam presas na mente e agradecer a outras por terem ido pra longe. Agora só quero saber de quem é de verdade e está junto comigo, o resto é pura viagem. Enfim só tenho isto a dizer. Boa noite.

A parte mais difícil

E a parte mais difícil
Foi deixar ir sem fazer nada,
Foi a parte mais difícil.

E a coisa mais estranha
foi esperar a ficha cair,
Foi o início mais estranho.

Eu podia sentir acabando,
Eu podia sentir o gosto agridoce na minha boca,
Prata forrando as nuvens.
Ah, e eu,
Eu queria que eu pudesse fazer dar certo.

E a parte mais difícil
Foi deixar ir sem fazer nada,
Você realmente partiu meu coração.

E eu tentei cantar,
Mas eu não conseguia pensar em nada.
Essa foi a parte mais difícil.

Eu podia senti-la descer,
Você deixou o gosto mais doce na minha boca.
Seu prata forrando as nuvens,
Ah, e eu,
Ah, e eu
Me pergunto sobre o que é isso tudo.

Me pergunto sobre o que é isso tudo.

Tudo que eu sei está errado,
Tudo que eu faço apenas se desfaz
E tudo está despedaçado.

Ah, e é a parte mais difícil,
Essa é a parte mais difícil.
Sim, essa é a parte mais difícil,
Essa é a parte mais difícil.