Travessia

Eu queria escrever algo neste papel em branco e, no entanto tudo fugiu.
Talvez não exista nada pra ser dito, ou exista e eu não saiba.
Algo que repousa no eco do meu peito, que não tem peso, não tem leito
e flutua no espaço que sobrou.
Precisava escrever só pra contar algo, uma novidade, um desabafo.
Escrevi apenas estas linhas pra passar o tempo,
pra descansar as conversas e os discos que repetem todos os dias o meu pesar.

Amigo, eu só vim aqui pra te contar:
[não quero mais roubar tuas horas cansadas]
que em meu peito febril se debatem anjos, percorrem pelos cantos os demônios, se fazem feitiços, no meu peito sussurram os mantras,
suspiram as dores, fazem-se danças e entre ruídos a fantasia sai pra desfilar.
Mas — agora eu realmente te pergunto —
e o que fazem dos amores que não podemos suportar?

Nestas noites em claro, nesta monotonia.
Dos cigarros acesos no escuro, da fumaça que não se vê,
dos dias que passam furtivamente e não nos perguntam:
o que faremos da nossa poesia morta? Das velhas canções?
Eu ainda não sei as respostas não estão em lugar algum.
Nada livros sagrados, canções, poesias ou prateleiras.
Ah, mas eu queria te escrever pra te dizer que aqui dentro tudo é vertical
e que estão distraídos e distantes, todos (ou quase)
aqueles velhos temores que gritei nas horas daquelas noites.

Mas no final de tudo: só escrevi por escrever.
Escrevi só pra mandar notícias, pra falar um tanto de mim.
Tudo aquilo que a gente já cansou de repetir por aí.
Nos bares, nos bancos da praça, estampados nos jornais.
Pra ouvir aquele velho blues com teu cheiro, o canto do desespero
E escrever meras palavras neste espaço, gravar o vínculo, o eterno enlaço.
Com a efêmera certeza de que deixei tudo para trás.

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