a identidade desconhecida

Fui e voltei na asa de um pássaro gigante
Cortando nuvens pelo céu empoeirado
Com fumaça e raios de sol.
Deixei meu coração pregado nos arranha-céus da velha cidade
Maltrapilha com seus muros pichados
Com um frio que corta nossos lábios
E voltei para tocar meus pés na areia
Na beira do mar quente
Onde o sol não se esconde atrás de nuvens
E cintila em nossos óculos coloridos.

Realmente, faz tempo que não escrevo nada
Acho minhas linhas infiéis e mentirosas
Quando escrevo mudo o que sinto, visto um personagem
A persona e o ser confundem-se como num teatro
Enceno a dor de ser eu mesma, o desespero de não ser
Quem talvez eu desejasse.

A troca de identidade é inquietante, foi-se o cenário conhecido
Novos personagens e falas, novos escritos
Ainda não sei bem por onde começar
Pedida entre corredores de ônibus e pontes
Sons desconhecidos e gírias.

Já estive aqui antes
E não é mais como eu conheço
Tenho alguns presságios, lembranças que se descobrem sem querer
Enquanto giro até cair na roda dançante
Esperando pelo momento de me reconhecer,
Encontrar novos olhares amigos
E ver renascer em mim a pessoa
Que ficou adormecida nos bancos do metrô.

Mas novamente acordo com olhos cansados,
Posando na minha cama sem encantos
Com o calor e o suor
De agora ser uma nova pessoa,
Velha-nova, sem novidades interessantes
Com o peito carregado de mil rostos com saudade
De tudo que passou.